segunda-feira, 31 de julho de 2017

INSEGURANÇA NA CAPITAL 22 mil roubos em um semestre: moradores se adaptam à rotina. Chave trancando a porta do estabelecimento em horário comercial, dois celulares dentro da bolsa e o dinheiro espalhado pelos bolsos da vestimenta. As cenas são exemplos que se repetem no cotidiano de quem vive em uma grande cidade. Ter que se adaptar à violência de Fortaleza é, muitas vezes, passar a viver entre grades e em meio a artifícios para burlar as ações criminosas.

Comerciantes do bairro Pirambu consideram aquela região tranquila

Duas AIS de Fortaleza lideram em números de CVPs. A população vive entre grades para tentar driblar a insegurança

01:00 · 31.07.2017 por Emanoela Campelo de Melo - Repórter

Chave trancando a porta do estabelecimento em horário comercial, dois celulares dentro da bolsa e o dinheiro espalhado pelos bolsos da vestimenta. As cenas são exemplos que se repetem no cotidiano de quem vive em uma grande cidade. Ter que se adaptar à violência de Fortaleza é, muitas vezes, passar a viver entre grades e em meio a artifícios para burlar as ações criminosas.

No primeiro semestre de 2017, o Estado do Ceará registrou 38.535 Crimes Violentos contra o Patrimônio (CVPs) - roubos em geral. As dez Áreas Integradas de Segurança (AIS) da Capital são responsáveis, juntas, por 22.589 ocorrências.

Conforme registros da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), há dois aglomerados de bairros onde o crime é mais recorrente. A AIS 6 é líder nas ocorrências de roubo. Foram 3.539 CVPs na Região, de janeiro a junho deste ano. Comerciantes permanecem como alvos visados e recorrentes da ação dos criminosos.

A gerente de uma farmácia localizada na Avenida Coronel Carvalho, bairro Quintino Cunha, conta, sem se identificar, que a rotina de trabalho é cercada por uma incerteza: "ninguém sabe se quem está entrando é realmente cliente". Para a mulher, a insegurança no comércio é reflexo do bairro perigoso.

"Nosso horário reduziu. Antes fechava 22h, e agora 21h30. Parece ser pouco, mas é significativo quando vamos sair", conta a funcionária sobre a adequação do horário de funcionamento à violência do ambiente.

Em uma outra farmácia, mais a frente, dessa vez já no bairro Padre Andrade, os funcionários vivenciaram cenas de terror. Um vendedor confessa que, recentemente, o comércio foi invadido e os trabalhadores feitos reféns.

Na Parquelândia, o comerciante Paulo Roberto Silveira Lobão sabe o que é adaptar o local onde trabalha ao cenário crítico. Seu estabelecimento está cercado por grades e cadeados. Conforme Lobão, encerrar o atendimento antes das 18h não é uma escolha livre: "Abri em fevereiro e já coloquei grade para evitar (roubo). Eu fecho antes que escureça e, às vezes, deixo de atender alguém por medo. Me considero abençoado por nunca ter sido assaltado, é como se eu fosse 'o incomum'".

Arredores

Com 3.537 registros, a segunda região com maior número de roubos é a AIS 5. Lá estão bairros como Vila Pery e Benfica. Na Rua 1º de janeiro, da Vila Pery, dois comerciantes vizinhos conversam com naturalidade sobre as cenas observadas nas calçadas. "Um assalto aqui, outro ali. Isso é comum", afirmou um homem sem se identificar.

A fala mostra que o crime é entendido como recorrente e banal. "É o que a gente vê na televisão todo dia. O que nos restou foi colocar grades para tentar assegurar o ponto", disse a dona de um mercadinho.

No bairro Benfica, os comerciantes pensam de forma semelhante. Para entrar em um estabelecimento, é necessário que a gerente deposite confiança. Da porta, ela observa que se trata de uma reportagem e diz: "sabe como é, né? Os alunos estão de férias, a rua mais deserta, não dá para abrir para qualquer um".

A cada saída de cliente, a porta é aberta e trancada novamente. De acordo com a dona da gráfica, o ritual leva, aos funcionários, uma mínima sensação de segurança para o trabalho. "Vejo da minha porta os assaltos acontecendo e me acostumo. Polícia que é bom, quase não", diz a mulher sem revelar seu nome.

Resguardo

Segundo o comandante de Policiamento da Capital (CPC), coronel Marcello Furtado, o policiamento em todas as AISs foi intensificado após a recente entrega de viaturas e o ingresso de mais policiais militares. Para ele, a previsão é que o número de assaltos reduza cerca de 10%.

"Cada área conta com 11 ou 12 viaturas. Em outubro, teremos mais 1.400 policiais nas ruas e esperamos reduzir consideravelmente esses índices de violência", disse o oficial.

Cenários das duas regiões de menos roubos destoam das AISs 5 e 6, já outras cenas reforçam que, apesar dos números inferiores, a Polícia não se faz presente com a frequência necessária.

No ranking dos assaltos, Pirambu e Vila Velha, bairros da AIS 8, estão em último. No Vila Velha, a população estranha ao saber que o local é considerado pela SSPDS como um dos onde menos acontecem roubos. "A Secretaria disse isso? Aqui uma palavra mal dada é motivo para represália", afirmou um comerciante, ao explicar o porquê não daria entrevista. O medo também ronda um outro morador do bairro, que lembra a periodicidade dos crimes na região. "Se aqui, tendo assalto todo dia, é um dos menos perigosos, imagina onde está pior", afirmou. O contraponto pode ser visto nos números dos crimes violentos. Apesar da AIS 8 ser onde menos há assaltos, a área é regida pelo tráfico de drogas e palco para muitas mortes entre organizações criminosas rivais. "A gente vê na mancha criminal que, normalmente, onde tem homicídio, não tem roubo. O cara não assalta no local onde vive. Ele procura assaltar em outro local para não ter reconhecido", diz o coronel Marcello Furtado.

Já o diretor do Departamento de Polícia da Capital, delegado Pedro Viana, considera como um dos principais fatores a opção dos criminosos em roubar áreas nobres: "Eles preferem roubar onde podem conseguir objeto melhor. É uma motivação de cunho socioeconômico. Os crimes patrimoniais costumam acontecer nos corredores comerciais. Quando falamos no Pirambu, por exemplo, é natural ter menos roubos porque a Polícia está mais presente", afirmou.

Periferia

Para Targino Neto, proprietário de uma farmácia no Pirambu, o principal motivo para o bairro estar inserido na área onde menos há assaltos se deve ao fato de todo mundo se conhecer no local. Ele conta que, em 10 anos, foi roubado duas vezes, "o mínimo" quando comparado ao que já viu e ouviu dos amigos.

Fabrício Vasconcelos, que também gerencia um comércio no Pirambu, diz nunca ter sido assaltado. "As pessoas falam mal e têm medo daqui, mas é um ambiente sossegado. As famílias sentam na calçada e os moradores se respeitam. Coloquei grade por uma questão de costume", disse Vasconcelos.

Em todos os bairros percorridos pela reportagem durante a semana passada, o único onde foram vistas transitando viaturas da Polícia foi o Pirambu. De acordo com a Polícia Civil, é indispensável que a população denuncie os roubos, já que, a partir dos registros, são desenvolvidas ações específicas para a área.

Assaltos em ônibus crescem 53,4%: um medo diário

São incessantes as ocorrências de assaltos nas paradas de ônibus e dentro dos coletivos urbanos. No primeiro semestre de 2017, o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus) registrou 1.387 roubos contra motoristas, cobradores e passageiros. O número é 53,4% maior, quando comparado a igual período de 2016.

Na Avenida Sargento Hermínio, por volta das 15h, Meiriane Ramos aguardava sozinha por um coletivo. De longe, era possível ver a preocupação da operadora de telemarketing que não parava de olhar para o seu entorno e segurar com força a bolsa. "Tenho todo um cuidado para evitar ser assaltada", explicou ao ser questionada sobre o temor.

Meiriane é moradora do Presidente Kennedy e sabe que a violência está diariamente presente no bairro. "Na parada, eu nunca fui assaltada, mas por perto já, e no ônibus sempre tenho medo. Aqui não é seguro e é raro eu ver policiamento", disse a operadora de telemarketing.

O local onde a passageira aguardava está inserido na área onde mais são registrados roubos. Conforme o coronel Marcello Furtado, que responde pelo Comando de Policiamento da Capital (CPC), no início da manhã, próximo às 6h, é o período de maior índice de assaltos nas paradas de ônibus.

"Sabendo disso, nós mudamos os horários das viaturas para que elas passem mais nessa hora. Foi percebido também que a maioria dos assaltos acontecem nas avenidas Mister Hull, Perimetral e Presidente Castelo Branco, principalmente vizinhos as comunidades onde os criminosos moram. Eles assaltam, descem e sabem por onde fugir", afirmou o coronel.

Combate

De acordo com o comandante, foi feito um planejamento para reduzir o número de roubos em coletivos. O objetivo das autoridades é que, a cada semana, os assaltos diminuam 15%. A ação inclui abordar diariamente dez ônibus em cada uma das dez Áreas Integradas de Segurança (AIS) de Fortaleza. Assim, serão 700 ônibus vistoriados pelos policiais em uma semana.

"Estamos buscando parar em locais específicos para a população sentir a presença da Polícia. São paradas estratégicas que fazem diminuir sensivelmente os roubos. Percebemos que os criminosos envolvidos nesses assaltos são reincidentes e costumam atacar quase sempre no mesmo local", destacou o coronel.

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