domingo, 3 de setembro de 2017

MUNDO O mundo pode conviver com uma Coreia do Norte nuclear?. Teste de míssil recente de Pyongyang sobre território do Japão escala tensão na região e causa preocupação no mundo, onde muitos se perguntam como lidar com uma nova potência nuclear.

Uma mulher observa uma TV de uma estação ferroviária de Seul, na Coreia do Sul, que mostra imagem de um lançamento de míssil balístico da Coreia do Norte
(Foto: Jung Yeon-Je / AFP Photo)

Foi o mais provocador dos recentes testes de mísseis da Coreia do Norte. Lançar um foguete sobre o território japonês - o terceiro do tipo em duas décadas - mostra que o país está disposto a manter sua postura arriscada de testar os limites da diplomacia.

Ao menos até certo ponto, já que a Coreia do Norte não cumpriu sua ameaça de direcionar um míssil rumo ao território americano de Guam, no Pacífico, o que poderia ter gerado uma reação dos Estados Unidos.

Mas isso mostra ter sido precipitada a afirmação do governo de Donald Trump de que a Coreia do Norte teria passado a refletir sobre as repercussões de suas ações após a escalada de tensão entre as duas nações.

E aqui estamos de novo nos perguntando o que fazer quanto à Coreia do Norte e o rápido progresso de seus programas de mísseis balísticos e armas nucleares.

Uma questão que pode ser reformulada da seguinte maneira: se esses programas não podem ser interrompidos e Pyongyang conseguir desenvolver armamentos capazes de atingir o continente americano, os EUA e o resto do mundo conseguiriam conviver com uma Coreia do Norte nuclear?

Hoje, há cinco potências nucleares declaradas: Reino Unido, França, Estados Unidos, China e Rússia. Elas desenvolveram seus arsenais após a Segunda Guerra Mundial - que viu a demonstração do poder destrutivo das bombas atômicas, lançadas pelos americanos sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. A China foi a última a entrar no clube, em meados dos anos 1960.

Desde então, esforços para prevenir a proliferação de armas nucleares têm sido bem-sucedidos. Um tratado para isso, celebrado em 1970, determinou que as cinco potências deveriam reduzir e até mesmo eliminar seus arsenais enquanto os outros países desfrutariam dos benefícios da tecnologia nuclear para fins pacíficos ao concordar em não buscar desenvolver armas do tipo.

Seja por meio desse tratado, de ameaças militares, como no caso do Iraque e da Líbia, ou de outro acordos, tal qual o celebrado com o Irã, muitos poucos países tentaram criar arsenais nucleares. Alguns que tinham programas de armas em estágio relativamente avançado, como a África do Sul, os abandonaram.

Três países que nunca assinaram o tratado desenvolveram armas nucleares: Israel, Índia e Paquistão. Mas, ainda que seus programas sejam considerados controversos por alguns, eles só são considerados ameaçadores no contexto regional, mesmo que a segurança nuclear do Paquistão e a proliferação de suas atividades no passado tenham deixado outras partes do mundo em alerta.

Então, o que aconteceria se a Coreia do Norte se unisse a esse trio?

Na prática, o país já está armado nuclearmente - só resta dúvidas sobre sua capacidade de atingir cidades americanas. Mas o país se diferencia por não ser uma democracia, não ser aliado dos Estados Unidos e estar particularmente isolado do sistema global. Além disso, seu regime está decadente e enfraquecido, ainda que busque dar demonstrações de força.

E, ao contrário de Israel, Índia e Paquistão, suas armas nucleares não são feitas apenas para intimidar rivais locais. Seu alvo declarado seriam os Estados Unidos. Assim, os dois países podem coexistir como "rivais" nucleares, tendo em mente que o poderio americano supera em muito o dos norte-coreanos?

Muitos argumentam que o uso de armas nucleares para dissuadir nações inimigas, como ocorreu na Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética, ajudou a manter a paz. O mesmo poderia ocorrer agora entre Coreia do Norte e os americanos?

A política de dissuasão evoluiu para um complexo sistema de teoria e prática, uma linguagem que Moscou e Washington compartilhavam. Mas é difícil imaginar Washington e Pyongyang desenvolvendo relação semelhante.

Houve um tempo em que tudo isso se restringia a hipóteses. A Coreia do Norte estava testando mísseis e desenvolvendo seu arsenal nuclear, mas progredia lentamente - a ideia de que poderia ser uma ameaça aos Estados Unidos estava a décadas de distância.

Agora, estamos nos aproximando rapidamente desse momento. O objetivo na época era suspender o programa nuclear norte-coreano e fazê-lo regredir, ou seja, forçar o país a abandonar suas ambições na área. Essa esperança se provou ilusória. Então, quais são os pontos-chave da situação atual?

Drama ou crise?

O progresso da Coreia do Norte tem sido impressionante e preocupante, mas o país ainda não chegou lá. "Testar um foguete está longe de significar que se tem um míssil operacional", diz Tony Cordesman, analista em estratégia. "Ter a capacidade de criar uma pequena ogiva também não é o mesmo que produzi-la e testá-la de fato."

Poderia Pyongyang usar sua capacidade insipiente contra os Estados Unidos? "Seria estúpido e insano disparar um míssil não testado com uma ogiva não testada usando um veículo de reentrada não testado com precisão e confiabilidade não testadas contra uma potência nuclear", afirma Cordesman, para quem a situação com a Coreia do Norte demanda como resposta uma política coerente - e não ameaças retóricas.

Influência chinesa

Trump tentou pressionar Pequim a forçar a Coreia do Norte a recuar, sem atingir exatamente esse objetivo. A China apoiou sanções mais duras por parte da ONU, mas reclamou duramente contra sanções bilaterais impostas pelos Estados Unidos que atingiam indivíduos ou empresas chinesas.

A pressão chinesa é uma das poucas formas de afetar a Coreia do Norte, mas isso não pode ser superestimado. No fim das contas, a China não quer o fim do atual regime e ver milhões de refugiados cruzando as fronteiras. Então, manterá sua postura ambivalente, compartilhando das mesmas preocupações dos americanos, mas apenas até certo ponto.

A questão regional

É fácil ver essa crise como uma disputa entre dois líderes imprevisíveis: Trump e o líder norte-coreano Kim Jong Un. Mas é uma questão muito mais complexa.

Há uma dimensão intercoreana, há uma dimensão japonesa, há a relação mais ampla desses países com Washington e Pequim. E há um cálculo estratégico mais amplo: a ameaça da Coreia do Norte pode levar a região a se armar novamente.

A crescente popularidade do uso de mísseis balísticos para defesa já gerou tensão entre a Coreia do Sul e a China. A Rússia está acompanhando de perto o desenrolar disso.

Uma abordagem multidimensional?

Se a Coreia do Norte continuar nesta trajetória, uma nova política de dissuasão e contenção terá de ser elaborada. Mas precisa ser uma que não piore ainda mais a situação.

Alguns elementos dessa política já foram mencionados: sanções econômicas mais duras contra a Coreia do Norte às quais a China possa aderir, melhores armas para que aliados americanos na região possam se defender, inclusive sistemas antimísseis e uma demonstração clara de que os Estados Unidos estão dispostos a estender sua proteção nuclear a seus aliados asiáticos da mesma forma que faz com seus aliados europeus na Otan.

Mas, por si só, muitas dessas medidas apenas farão a Coreia do Norte se sentir ainda mais ameaçada, então, é preciso algo mais...

Um caminho diplomático

A diplomacia não é vista com bons olhos no governo Trump. Basta ver sua oposição ao acordo nuclear com o Irã. Mas imagine se houvesse algo similar com a Coreia do Norte. Não é algo exatamente possível, mas, diante de uma situação que vem se deteriorando, um acordo que retardasse o progresso norte-coreano seria melhor que nada.

Ex-diplomatas americanos já alertaram que tratativas diplomáticas com "o reino ermitão" são descartadas muito facilmente. É verdade que o acordo que suspendeu as atividades nucleares da Coreia do Norte em meados dos anos 1990 acabou entrando em colapso em dado momento, mas os avanços de Pyongyang foram interrompidos por vários anos.

Outro acordo, em 2000, que suspendeu o programa de mísseis de longo alcance, também falhou. Mas os registros históricos mostram que tanto ações americanas quanto norte-coreanas foram responsáveis pelo fracasso.

O regime norte-coreano não é tão louco quanto as pessoas imaginam, argumentam diversos analistas. Há uma lógica por trás de seu comportamento, e há objetivos que ele persegue. Um acordo de paz em relação à península coreana, um compromisso por parte dos Estados Unidos de não tentar derrubar o atual regime, desenvolvimento econômico. Tudo isso pode ser usado como moeda de troca diplomática no futuro.

Como sempre, essa é uma questão complicada com poucas alternativas na mesa. A meta tem de ser evitar os piores resultados e buscar os menos ruins. Diplomacia, coerção, sanções, dissuasão, todos esses elementos têm uma função a exercer.

A questão que fica é se o governo americano está a altura do desafio e se o regime da Coreia do Norte está de fato preparado para barganhar ao perceber que tem algo a ganhar com isso.

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