quarta-feira, 4 de outubro de 2017

COAÇU Desarticulados grupos que exploravam crianças para o tráfico de drogas.

Thiago Paiva

A Divisão de Combate ao Tráfico de Drogas (DCTD) desarticulou duas organizações criminosas que dominavam territórios para tráfico de drogas, no bairro Coaçu, em Fortaleza. As investigações revelaram que os grupos antes rivais haviam firmado “acordo de cavalheiros” entre si, delimitando áreas de atuação, tipo de droga a ser comercializado e o clube para o qual os membros deveriam torcer, além de definir o uso de crianças no tráfico por faixa etária. Onze pessoas foram presas.

 

Entre os alvos da operação, batizada de Occasus, desencadeada no último dia 25 de setembro, está um dos líderes locais de uma facção nacional. Lucas Mendes Ferreira, 33, conhecido como Papai ou Patrão, comandava o tráfico no Parque Santa Rosa. Durante anos, o grupo ligado a ele rivalizou com criminosos da comunidade Pôr do Sol, às margens da CE-040, cujo tráfico era comandado por Tony Carlos Ferreira Viana, 29. Ambos foram capturados.

Segundo a titular da DCTD, delegada Patrícia Bezerra, o pacto entre as organizações foi firmado em 2014, ano em que o Pôr do Sol foi ocupado por policiais militares e civis, em operação da Secretaria da Segurança Pública (SSPDS). A presença constante da Polícia teria influenciado na atuação dos grupos, que formalizaram o pacto.

“Qualquer conflito nas comunidades, depois daquilo, era resolvido numa espécie de conselho, e as duas lideranças resolviam tudo”, destacou Patrícia. “Para evitar confrontos entre membros das duas quadrilhas, elas acertaram que ambas iriam torcer por um único time de futebol local”, reforçou o chefe de Gabinete da Polícia Civil, ex-titular da DCTD, Sérgio Pereira.

Foi estabelecido ainda que a cocaína seria vendida pelo grupo do Pôr do Sol e a maconha, pela organização do Parque Santa Rosa. As drogas eram guardadas juntas. Havia “cláusulas” definindo que as organizações deveriam dar fuga e refúgio a membros “consorciados”, se necessário.

Os territórios foram demarcados, impondo fim a roubos, furtos e homicídios. “Depois do acordo, não teve mais homicídios na área. Eles saíam para matar fora, evitando que a Polícia entrasse no local”, disse Patrícia. As declarações foram dadas em entrevista coletiva, ontem.

Conforme a DCTD, era de Lucas o maior domínio na região. Preso por tráfico pela Polícia Federal em 2008, ele é considerado traficante com influência nacional e conexões internacionais. O grupo ligado a ele pretendia estender atuação para Aquiraz, nas praias do Iguape e Prainha. Tony era considerado liderança local e tinha passagem por tráfico e porte de arma.

Todos foram autuados por tráfico e associação para o tráfico. Posteriormente, outros crimes serão incluídos, como lavagem de dinheiro e homicídio. O POVO apurou que a anuência de PMs da região para com o tráfico é investigada. O inquérito será remetido para a Controladoria Geral de Disciplina (CGD).

 

Saiba mais

 

Também foram presos: Gledilson Lopes da Silva, 36; Honny Walter Abreu Costa, 36; Jaimison do Nascimento Souza, 21; Karla França Sousa, 37; Marcos Emerson Batista da Silva, 36; Samuel da Silva, 28; Juslene Batista Batista Sobral, o Tom, 30; Maxsuel Benício Bezerra, o Pascoal, 21; e Rafael Lopes da Silva, o Alemão, 28. Em dois anos, 20 pessoas já foram capturadas. O “gerente” de um dos grupos está foragido.

Conforme o delegado Sérgio Pereira, além de drogas, foram apreendidos: nove veículos; cinco armas, incluindo um fuzil de calibre 556; relógios de luxo; um drone que seria usado na vigilância; além do bloqueio de contas bancárias e sequestro de bens.

 

Uma igreja pentecostal, uma floricultura e outras empresas eram usadas para lavar o dinheiro.

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