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segunda-feira, 7 de maio de 2018

SOROPOSITIVAS: Sem dados no Ceará, HIV em crianças fica na invisibilidade


Estado possui estatísticas sobre casos de Aids na infância, mas faltam dados sobre total de crianças com o vírus

    


No Ceará, com os avanços nos métodos de prevenção da transmissão vertical do vírus entre mães e filhos, o número tem conseguido se manter estável nos últimos 10 anos, variando entre 6 e 11 casos


Por Vanessa Madeira - Repórter
Crianças soropositivas são cobertas por mantos de invisibilidade. Vítimas, em grande parte, de lacunas no processo de detecção do HIV nas mães antes ou durante a gestação - nascem, muitas vezes, sem saber que possuem o vírus e assim podem passar anos. Nem estados, nem municípios, sabem quem são ou quantas são. Apenas nos casos mais graves, quando o HIV se transforma em doença, a Aids, passam a ser contabilizadas e reconhecidas. Caso contrário, permanecem sem acesso à informação e ao tratamento.


No Ceará, um dos estados que lembrou, nesse domingo (6), o Dia Mundial das Crianças Afetadas e Infectadas pelo HIV e Aids, os dados disponibilizados pela Secretaria de Saúde do Estado (Sesa) tratam dos diagnósticos de Aids em crianças com menos de 5 anos. Com os avanços nos métodos de prevenção da transmissão vertical do vírus entre mães e filhos, o número tem conseguido se manter estável nos últimos 10 anos, variando entre 6 e 11. No ano passado, atingiu o patamar mais baixo, com apenas dois casos registrados.


No entanto, para cada caso de Aids contabilizado, outros tantos de HIV em crianças têm passado despercebidos pelo poder público. "Pelos dados, vemos que houve queda na transmissão e isso foi muito importante. Mas, como acontece em pouca quantidade, os casos que ainda existem ficam na invisibilidade. E ainda existem muitos", destaca Vando Oliveira, coordenador da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids no Ceará, que reúne cerca de 2.000 pessoas no Estado. "Se já existe invisibilidade para o HIV e a Aids como um todo, imagina para as crianças", acrescenta.

Oliveira destaca que os casos de crianças soropositivas existentes hoje são reflexo do contexto de vulnerabilidade social em que vivem as famílias afetadas, cenário que ele chama de "pauperização da Aids". Ele ressalta que a realização do pré-natal adequado ainda é falha, e grande parte das gestantes infectadas, quando descobrem o vírus, o fazem tardiamente.

Segundo os dados da Sesa, entre 2007 e 2017, a detecção de HIV em gestantes foi ascendente no Ceará. Em 2016, atingiu o valor mais alto da década (301 casos), caindo no ano seguinte (194 casos). Em 2017, embora 95,8% das grávidas diagnosticadas com o vírus tenham tido acompanhamento médico durante a gestação, apenas metade delas, em média, utilizou terapia antirretroviral no pré-natal e no parto, conforme orienta o Ministério da Saúde.


"Muito dificilmente essas mães conseguem fazer o acompanhamento todo bonitinho como a Medicina recomenda. A pauperização da Aids é muito grande no Ceará e isso é um fator importantíssimo para explicar a situação que temos hoje", diz o coordenador da Rede.


O acompanhamento precisa acontecer não só antes, mas também depois do nascimento. A criança exposta ao HIV deve tomar medicamentos profiláticos até completar 1 ano e meio de idade. Para mães em situação de vulnerabilidade, persistir no tratamento ao longo de 18 meses é, no mínimo, desafiador. Contudo, somente após esse período o diagnóstico da criança, positivo ou negativo, será definitivo.

Referências

O Estado oferece a profilaxia para gestantes vivendo com HIV e crianças expostas ao vírus nas maternidades da rede pública. Já o tratamento para crianças soropositivas é disponibilizado em 29 unidades. O Hospital São José e o Hospital Infantil Albert Sabin são referências.


A assessora técnica do grupo de trabalho de IST, Aids e Hepatites Virais da Sesa, Anuzia Saunders, reitera o desafio de diagnosticar precocemente mulheres vivendo com o vírus para evitar os casos de HIV ou Aids infantil. "Infelizmente, essas mulheres em idade fértil normalmente só fazem o exame de HIV na hora do pré-natal, que é quando é solicitado. Algo está acontecendo e eles não estão tendo a oportunidade de fazer o teste antes da gravidez", afirma.


Ela destaca que a implantação dos testes rápidos nas unidades de saúde, em 2009, foi um avanço para a detecção do vírus. "Você tem possibilidade de fazer o diagnóstico entre 10 e 15 minutos. Antes, a gestante fazia a sorologia, mas ia parir sem o resultado. Quanto mais rápido diagnosticar, mais rápido é possível oferecer medicações e profilaxia".


Fique por dentro
Evento discute política para soropositivos


Em alusão ao Dia Mundial das Crianças Afetadas e Infectadas pelo HIV e Aids, a Rede Nacional de Pessoas com HIV/Aids no Ceará promoverá, hoje (7), uma roda de conversa com a presença de membros da entidade e representantes do poder público. Segundo Vando Oliveira, o evento pretende levantar a conscientização sobre a situação de crianças soropositivas no Estado e, junto ao Governo e à Prefeitura, debater a criação de uma política para esse público. "Queremos saber como estão essas crianças, qual é número de gestantes com HIV, quantas crianças estão expostas, quantas foram negativadas. São inúmeras perguntas para fazer ao Governo. A partir dessas respostas, a ideia é contribuir para criar uma política que garanta direitos", diz.


© Diário do Nordeste

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